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Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 6.
Amor
A verdade é que devemos tudo aos amores infelizes, aos amores que não dão certo. A poesia se faz antes ou depois do amor, ninguém jamais fez um bom poema durante um amor feliz. Pois se o amor está tão bom, pra que interrompê-lo? O amor feliz não é assunto de poesia, o amor feliz é em vez de poesia. Literatura é quando o amor ainda não veio ou quando já acabou, literatura durante é mentira. Ou ela é empolgação ou é remorso, revolta, saudade, tédio, divagação desesperada — enfim, tudo que dá bom texto. Desconfie de quem explica um estado de exaltação criativa dizendo que está amando. Algo deve estar errado.
— Você está amando, mas ela não está correspondendo, é isso?
— Não, não. Ela também me ama. E maravilhoso.
— É maravilhoso, mas você sabe que não pode durar, é isso? Seu poema é sobre a transitoriedade de todas as coisas, sobre o efêmero, sobre o fim inevitável da felicidade num mundo em que...
— Não! É sobre a felicidade sem fim!
— Não pode ser.
— Mas é. Acabei o poema e vou fazer uma canção. Depois, talvez, uma cantata. E estou pensando num romance. Tudo inspirado no nosso amor. Não posso parar de criar. Estou transbordando de amor e ideia. Crio dia e noite.
— E a mulher amada?
— Quem? Ah, ela. Bom, ela sabe que a atenção que não lhe dou, dou ao nosso amor perfeito.
Está explicado. Ele não canta a amada ou seu amor. Está fascinado por ele mesmo, amando. E o poema certamente é ruim. Porque o amor, para ser de verdade, tem de emburrecer. Só devem lhe ocorrer bobagens para dizer ou escrever durante um caso de amor. Ou é kitsch, de mau gosto, piegas ou copiado, ou não é amor. Qualquer sinal de originalidade pode até ser suspeito.
— Esses seus versos para mim... Estão ótimos.
— Obrigado.
— Essas juras de amor, essas rimas, essa métrica... De onde você tirou tudo isso?
— Eu mesmo inventei. Pensando em você.
— Seu falso!
— O quê?
— Só deixando de pensar em mim por algumas horas você faria uma coisa assim pensando em mim. Só tomando distância, escrevendo ou reescrevendo, raciocinando e burilando você faria isso. Um verso plagiado do Vinicius eu entenderia. Um verso original, e bom desse jeito, é traição. Só não sendo sincero você seria tão inteligente!
— Mas...
— Não fale mais comigo.
Pronto. O amor acabou, agora você pode ser criativo sem remorso. Você está infeliz, mas console-se. Pense em como isso melhorará o seu estilo.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.
A locução “em vez de”, que ocorre no texto — “O amor feliz não é assunto de poesia, o amor feliz é em vez de poesia.” —, é classificada gramaticalmente como:
locução adverbial, formada por preposição, substantivo, preposição.
locução adverbial, formada por preposição, advérbio, preposição.
locução prepositiva, formada por preposição, advérbio, preposição.
locução prepositiva, formada por preposição, substantivo, preposição.
locução conjuntiva, formada por conjunção, substantivo, conjunção.