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Leia os textos I e II a seguir e responda às questões de 1 a 10.
Texto I
1 Velhice, por que não?
2 Para Vovó a beleza foi um tormento, porque o tempo não se detinha e desde moça
3 seu maior pavor era perder aquele bem supremo. Olhava-se nos espelhos procurando uma
4 primeira ruga, uma primeira dobra. Uma primeira manchinha. Quando chegou aos 60 anos,
5 quase morreu de dor, andava pela casa gritando: – Eu odeio fazer 60 anos! Eu não aguento
6 fazer 60 anos!
7 Não adiantava as pessoas dizerem que parecia nem ter 40, tão conservada.
8 As primeiras cirurgias leves tinham-lhe feito bem: removeram um traço amargo, um
9 sinal de cansaço prematuro. Depois seu médico lhe disse: – Vamos deixar a natureza agir
10 um pouco e o corpo descansar. Não abuse.
11 Ela então foi procurar outros médicos, que faziam suas vontades.
12 Desafiando o indesafiável e excedendo seus limites, foi entrando no irreal. Mas as
13 ilusões não continham mais o tempo, e o costurado voltava a descoser. Minha Avó foi-se
14 isolando. Apartou-se das amizades, deixou as festas, não gostava mais de ninguém.
15 Começou a delirar reclamando que todo mundo a apontava nas ruas, nas lojas, nos
16 restaurantes: Lá vai aquela velha. Cada vez mais difícil de lidar e conviver, exigia o que
17 ninguém podia lhe dar: o tempo congelado. Aos poucos foi sendo devorada por dentro
18 também. O rosto de minha Avó, de tanto ser remendado, foi-se tornando outro. Mudou o
19 olho, mudou o nariz, mudou o queixo, mudou até a orelha. No fim nada mais nela era dela.
20 Se quisermos congelar o tempo e nos encerrarmos nesse casulo, estaremos
21 liquidados antes mesmo que a juventude acabe. Seremos a nossa ficção. A realidade
22 continuará à nossa volta, e um dia vamos descobrir que estamos fora dela. Para alguns,
23 essa será a crise salvadora. Acabou a invenção de um “nós” fantasmal. Se ainda quisermos
24 viver, não vegetar na prateleira da nossa fantasia, teremos de encontrar nessa aflição o que
25 restou de nossa personalidade. Pois ela é quem vai nos dar consistência e capacidade de
26 crescer até o último raio de lucidez. Assim se pode ter controle, não sobre o tempo, mas
27 sobre o quanto ele vai nos favorecer ou aniquilar. Para entender que maturidade e velhice
28 não são decadência, mas transformação, temos de ser preparados para isso. Dispostos a
29 encarar a existência como um todo, com diversos estágios, variadas formas de beleza e até
30 de felicidade. Acreditar que com cuidado e sorte poderemos ser atuantes mesmo décadas
31 depois: isso tem de ser conquistado palmo a palmo. Existir no tempo nos foi mostrado como
32 uma corrida infausta: cada dia uma perda, cada ano um atraso. E por imaginarmos que
33 nossas últimas décadas são apenas decadência, reforçamos o tabu que reveste essa
34 palavra. Palavras significam emoções e conceitos, portanto preconceitos. Por isso quero
35 falar de minha implicância com a implicância que temos com os vocábulos – e a realidade
36 – velho, velhice.
37 Detestamos ou tememos a velhice pela sua marca de incapacidade e isolamento. É
38 algo a ser evitado como uma doença. Não deixa de ser tolo encarar o tempo como um
39 conjunto de gavetas compartimentadas nas quais somos jovens, maduros ou velhos –
40 porém só em uma delas, a da juventude, com direito a alegrias e realizações. Pois a
41 possibilidade de ter saúde, projetos e ternura até os 90 anos é real, dentro das limitações
42 de cada período. Quando não pudermos mais realizar negócios, viajar a países distantes
43 ou dar caminhadas, poderemos ainda ler, ouvir música, olhar a natureza; exercer afetos,
44 agregar pessoas, observar a humanidade que nos cerca, eventualmente lhe dar abrigo e
45 colo. Para isso não é necessário ser jovem, belo (significando carnes firmes e pele de
46 seda…) ou ágil, mas ainda lúcido. Ter adquirido uma relativa sabedoria e um sensato
47 otimismo – coisas que podem melhorar com o correr dos anos. Mas predomina a ideia de
48 que a velhice é uma sentença da qual se deve fugir a qualquer custo – até mesmo nos
49 mutilando ou escondendo.
50 No espírito de manada que nos caracteriza, adotamos essa hipótese sem muita
51 discussão, ainda que seja em nosso desfavor. Isso se manifesta até na pressa com que
52 acrescentamos, como desculpa: “Sim, você está, eu estou, velho aos 80 anos, mas… jovem
53 de espírito.” Por que ser jovem de espírito seria melhor do que ter um espírito maduro ou
54 velho? Ter mais sabedoria, mais serenidade, mais elegância diante de fatos que na
55 juventude nos fariam arrancar os cabelos de aflição, não me parece totalmente indesejável.
56 Há poucas décadas alteraram-se nossos prazos, e os conceitos sobre juventude,
57 maturidade e velhice. Passamos a viver mais.
58 Hoje as avós dirigem seu carro, viajam, jantam fora com amigas, namoram, usam
59 computador, e de modo geral parecem muito mais felizes do que as damas de antigamente.
60 Mas, ambíguos como somos, por outro lado mais que nunca viceja o repúdio à velhice.
61 Lembro uma propaganda de televisão mostrando uma mulher idosa de xale nos ombros,
62 rosto murcho e desolado, vagando por um corredor. Era a imagem da pobre velha
63 abandonada que perdeu tudo – porque perdeu a juventude.
64 A vida é sempre a nossa vida, aos 12 anos, aos 30 anos, aos 70. Dela podemos
65 fazer alguma coisa mesmo quando nos dizem que não. Dentro dos limites, do possível, do
66 sensato (até alguma vez do insensato), podemos. Só seremos nada se acharmos que
67 merecemos menos de tudo que ainda é possível obter.
LUFT, Lya. Perdas e ganhos. Rio de Janeiro: Record, 2006 (adaptado).
Texto II

Em “O rosto de minha Avó, de tanto ser remendado, foi-se tornando outro” (linha 18), o trecho destacado expressa o sentido de
causa.
condição.
concessão.
consequência.
conformidade.