Imagem de fundo

O gênero textual crônica pode provocar reflexões profundas...

Leia a crônica “Liberdade”, de Clarice Lispector, para responder às questões de 34 a 38.


Houve um diálogo difícil. Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais. — Mamãe, tire esse cabelo da testa.

— É um pouco da franja ainda.

— Mas você fica feia assim.

— Tenho o direito de ser feia.

— Não tem!

— Tenho!

— Eu disse que não tem!

E assim foi que se formou o clima de briga. O motivo não era fútil, era sério: uma pessoa, meu filho no caso, estava-me cortando a liberdade. E eu não suportei, nem vindo de filho. Senti vontade de cortar uma franja bem espessa, bem cobrindo a testa toda. Tive vontade de ir para meu quarto, de trancar a porta a chave, e de ser eu mesma, por mais feia que fosse. Não, não “por mais feia que fosse”: eu queria ser feia, isso representava o meu direito total à liberdade. Ao mesmo tempo eu sabia que meu filho tinha os direitos dele: o de não ter uma mãe feia, por exemplo. Era o choque de duas pessoas reivindicando — o que, afinal? Só Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo.


(Clarice Lispector. A descoberta do mundo, 1999.)

O gênero textual crônica pode provocar reflexões profundas a partir da apresentação de situações banais do cotidiano. A autora demonstra ter consciência desse aspecto no trecho:


A

“Aparentemente não quer dizer muito, mas diz demais” (1o parágrafo).


B

“— Tenho o direito de ser feia” (5o parágrafo).


C

“E assim foi que se formou o clima de briga” (9⁠º parágrafo).


D

“Era o choque de duas pessoas reivindicando — o que, afinal?” (9⁠º parágrafo).


E

“Só Deus sabe, e fiquemos por aqui mesmo” (9⁠º parágrafo).