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No excerto “Se fossem pobres humildes fariam esta coisa...

Texto para responder às questões de 1 a 7.


Crime de casar


Um juiz desta capital, em longa sentença, que não li, condenou um homem a três anos e meio e uma mulher a dois anos. Ele, Demóstenes, está na Correção; ela, Maria, está no Reformatório das Mulheres Criminosas. Que fizeram esses dois? Que feio crime cometeram? Casaram-se. Por causa disso o juiz os condenou. Daqui a dois anos a criminosa reformada Maria sairá da cadeia; daqui a três anos e meio o criminoso corrigido Demóstenes será solto. Ambos voltarão para a sociedade dispostos a não se casarem nunca mais. E como o casamento deles ficou anulado, e como eles se amam, naturalmente irão viver amigados. E a sociedade ficará tranquila, e o juiz não os condenará mais.

Esta é, em resumo, a história. Há um detalhe e esse detalhe foi que atrapalhou: Demóstenes já era casado, e Maria sabia disso. Aliás, não foi propriamente esse detalhe que atrapalhou. O que atrapalhou mesmo foi outro detalhe. Demóstenes não é rico, e não teve dinheiro para ir ao Uruguai dar um jeitinho. Eu não quero concluir daí, em absoluto, que Demóstenes e Maria estão na cadeia porque são pobres. Mas talvez seja possível concluir que eles estão na cadeia porque são pobres soberbos. Se fossem pobres humildes fariam esta coisa simples: viveriam juntos. Mas os dois desde a infância ouviram dizer que casamento é uma coisa muito direita, e amigação é coisa feia. Casaram-se.

O juiz os condenou, e fez muito bem, porque cumpriu a lei. A obrigação do juiz é cumprir a lei, eu sei disso; e foi talvez por isso mesmo que há tempos, quando amigos incautos quiseram me nomear juiz, eu fiquei encabulado e não aceitei. Não quero tirar dessa historieta triste esta moralidade imoral: que o melhor é não casar, é amigar. Há, no caso, esta moral elevadíssima, que certamente inspirou a lei e moveu o juiz: o melhor, para Demóstenes, era viver com sua esposa antiga, e, para Maria, era casar com um solteiro. O único defeito desta moral elevadíssima é ser elevada demais: a vida humana nem sempre é possível nessas altitudes. Lá em cima, além, muito além da estratosfera, como diria Alencar, na região puríssima da moral absoluta, faz frio demais, e falta pressão: falta pressão sentimental. A vida humana não é possível sem uma certa pressão. Eu não digo isso por mim, que sofro de muita pressão (eis que sou um abafado), mas por Demóstenes.

Um amigo tenho eu que se casou há coisa de um mês. Encontrando-o, tive a falta de educação de pedir suas impressões. Ele me respondeu que estava gostando muito, mas muito mesmo. Disse que o casamento é uma grande coisa, que todo homem decente deve casar. E feliz, felicíssimo, exclamou:

— Francamente, estou entusiasmado. Se pudesse, eu me casaria todo mês!

Não cheguemos a tanto: neste caso há o que chamarei excesso de pressão. E a lei está aí. Dura lei, mas lei. Este brocardo é curto, mas em compensação não presta. A vida em si mesma já é tão dura que eu acho um exagero de mau gosto fazê-la ainda mais dura com a dureza da lei. Não creiam que eu seja favorável à moleza geral dos costumes; apenas acho que jogar uma mulher por dois anos na cadeia, no meio de ladras e assassinas, só porque ela se casou com um homem casado é dureza muita, e demais.

Quanto a Demóstenes, ele não enganou ninguém: Maria já sabia que ele era casado. Há tantos homens por aí presos e condenados porque não querem casar, mesmo ainda sendo solteiros, que eu lamento a perseguição feita a esse homem que fez questão de casar, mesmo já sendo casado. Na verdade, sinto que fiz muito bem em não querer ser juiz. Como simples cidadão, sou respeitador das leis: se fosse juiz, num caso desses, eu a desrespeitaria. E antes ser um bom sujeito que um mau juiz, penso eu.


BRAGA, R. O Conde e o passarinho e Morro do Isolamento. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 1982.

No excerto “Se fossem pobres humildes fariam esta coisa simples: viveriam juntos.”, a função textual do pronome demonstrativo ‘esta’ é:


A

retomar um referente já mencionado.


B

indicar um referente ainda por vir.


C

substituir um referente já mencionado.


D

repetir um referente já mencionado.


E

omitir um referente que se pode inferir pelo contexto.