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Texto para as questões de 1 a 8.
1 Ser rico é ter muitas coisas repetidas. Por dias
essa frase da minha filha, dita sem pretensão, na
incerteza leve dos seus três anos de idade, ficou a
4 ecoar em mim. Sem mistificação, sem excesso crítico,
de forma não mais que intuitiva, ela soube expressar
ali a insensatez da riqueza e a impotência que lhe é
7 constitutiva. Não há no mundo diversidade de coisas
suficiente para saciar a riqueza, não há posse boa o
bastante para justificá-la, e assim o sujeito insiste em
10 duplicar e triplicar o que já tem, num esforço vazio
fadado ao tédio. Foi esta a beleza simples que vi na
definição da minha filha: que, em sua visão da riqueza,
13 já estivesse contida a frustração que ela pode
produzir, a desilusão tão própria à insípida posse das
coisas.
16 Quando penso nas relações que as crianças
travam com o dinheiro, nunca me escapa à
lembrança o espantoso ensaio de Natalia Ginzburg
19 sobre "as pequenas virtudes". Num mundo que se
apressa em ensinar às crianças o valor do sucesso e da
riqueza, confundindo um e outro e tornando-os
22 requisitos para a felicidade, Ginzburg vai na
contramão e renega a importância que atribuímos a
posses e lucros. Propõe que não ensinemos às
25 crianças a pequena virtude da poupança, e sim a
grande virtude da generosidade e da indiferença ao
dinheiro. Propõe provocativamente que não lhes
28 ensinemos a guardar, e sim a gastar, para que não se
afeiçoem ao dinheiro e o associem "a algo de
momentâneo e estúpido", para que pensem que o
31 dinheiro em si é estúpido, "como é justo pensar
durante a infância".
Ginzburg não deixa de fazer a distinção
34 necessária entre as famílias pobres e as ricas, é claro,
não desconsidera a diferença abismal que se dá entre
umas e outras. Mas acaba apontando que o mal-estar
37 provocado pela centralidade do dinheiro nas relações
humanas vai além das desigualdades, contagiando
quase todos com certa avidez, condenando quase
40 todos a uma decepção constante. Nossa cultura
insiste que devemos querer sempre mais, que nada
deve nos bastar, sendo esse o suposto motor da
43 prosperidade. Nossa cultura é incapaz de ver a
insatisfação crônica que isso gera nos adultos, e que
reverbera de inúmeras maneiras nas crianças — por
46 sorte ainda aptas ao estranhamento.
Eis a complexidade que o caso tem. É preciso
dar ao tema do dinheiro a dimensão certa: é
49 grandioso se pensarmos no modo como ele estrutura
a nossa sociedade, mas deve ser ínfimo e irrelevante
se o considerarmos individualmente. Em ambas as
52 mensurações, estamos um tanto perdidos, é o que
sinto. Olhamos com apatia os que dormem nas ruas,
quando não com indiferença. E temos, diante dos
55 objetos reluzentes do mundo, a avidez de crianças
pequenas na loja de brinquedos, consumidores
afoitos que pouco sabem da legitimidade de seus
58 próprios desejos. Não precisamos de tantas coisas
repetidas, é o que deveríamos dizer às crianças, mas
elas parecem sabê-lo antes de nós. Já é tempo de que
61 os adultos o compreendam.
Julián Fuks. O que dizer às crianças sobre o dinheiro, o consumo e o desejo? UOL (com adaptações).
No primeiro parágrafo, o pronome “lhe” (linha 6) faz referência à
riqueza.
filha do autor.
intuição da filha do autor.
impotência típica de uma criança de três anos de idade.