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Considerando o emprego correto dos sinais de pontuação...

Silenciosamente barulhento


Por Pedro Guerra


01 A ideia de recomeço atualmente vem batizada com uma camada de cafonice. Talvez seja

02 fruto das propagandas de fim de ano, talvez seja a facilidade com que recorremos ao conceito.

03 Começar do zero é tentador porque implicitamente nos permite abandonar erros ou versões

04 desgastadas de nós mesmos e das quais já não nos orgulhamos. Ao mesmo tempo, todo

05 desmanche vem carregado do medo de encarar o novo. Para onde vou? Quem sou eu? O que eu

06 faço a partir de agora?

07 Se falamos de viradas, quase sempre as associamos ___ ideia de barulho. É preciso brindar

08 ao novo — não é isso que fazemos ___ cada término de ano, afinal? Muitas vezes preparamos a

09 festa da mudança de rota sem nem mesmo traçá-la primeiro. Queremos anunciar o novo ainda

10 antes de entendê-lo.

11 Mas recomeços raramente gritam. Eles costumam chegar em silêncio. É certo que, quando

12 a travessia envolve reorganizações internas, mil vozes parecem habitar a mente sem controle

13 algum. E é por isso mesmo que nenhum gesto verdadeiro de mudança ocorre em paralelo ao

14 caos e às crises. Poucos entendem que é preciso primeiro assentar a terra para depois decidir o

15 que pode (ou não) ser construído sobre ela. É aí que passam a existir os silêncios que, na

16 verdade, funcionam como sussurros: bem baixinho, a vida nos mostra o caminho.

17 Como em qualquer bota-fora que fazemos dentro de casa, ao esvaziar gavetas e armários

18 de tralhas e papeladas que já não servem mais para nada, o vazio se torna ponto de partida.

19 Nele, o silêncio desconfortável nos obriga a escutar aquilo que evitamos quando estamos

20 ocupados demais explicando quem somos.

21 Não ___ toa, 2026 se anuncia como um ano de inícios. A Numerologia o define como um

22 ano 1 — aquele em que os inícios ganham destaque. Não porque traga respostas prontas, mas

23 porque nos devolve às perguntas certas. Porém, existe um tempo pouco celebrado chamado

24 latência: o intervalo entre o estímulo e a resposta. Em um mundo que exige reações imediatas,

25 talvez recomeçar seja justamente ampliar esse espaço.

26 Não responder ainda. Não decidir agora. Permitir que o silêncio faça o que o impulso não

27 sabe fazer.

28 Há coisas que só amadurecem quando não precisam ser anunciadas. Ou, ainda, o que

29 chamamos de pausa talvez seja, na verdade, outra coisa. Um estado de suspensão. Um tempo

30 em que não avançamos nem recuamos — apenas sustentamos. Não se trata de inércia, mas de

31 lucidez: manter decisões no ar até que façam sentido ao tocar o chão. Há momentos em que

32 seguir adiante exige exatamente isso: não agir.

33 Ao menos, não ainda.


(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/pedro-guerra/noticia/2026/01/silenciosamente-barulhento-cmk5qpsoj01jg011hidczld5w.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Considerando o emprego correto dos sinais de pontuação, analise as assertivas a seguir:


I. Em “Ao mesmo tempo, todo desmanche vem carregado do medo de encarar o novo”, a vírgula separa um adjunto adverbial deslocado.

II. Em “É aí que passam a existir os silêncios que, na verdade, funcionam como sussurros”, a vírgula isola um aposto.

III. Em “Há momentos em que seguir adiante exige exatamente isso: não agir”, os dois-pontos introduzem um aposto cujo referente é “isso”.


Quais estão corretas?


A

Apenas I.


B

Apenas II.


C

Apenas I e II.


D

Apenas I e III.


E

Apenas II e III.