

Seu próximo nível começa aqui
Seu desenvolvimento não pode ter limites. Garanta sua Assinatura Ilimitada e libere uma preparação completa com os melhores professores do Brasil.
“A linha que separa o autobiográfico do ficcional é muito tênue”, afirma Falero
De servente de pedreiro, porteiro, José Falero se fez escritor, e apesar do reconhecimento que sua literatura venha tendo, afirma que sua vida é perrengue desde sempre e não há perspectiva de mudança. Falero conta que a leitura entrou tardiamente na sua vida, apesar de ela estar presente intrinsecamente no gosto que tem por narrativas, filmes, história em quadrinhos e até mesmo jogos de videogame. “Gostava de prestar atenção de como as histórias são contadas.”
O hábito e o gosto pelas letras de forma concreta veio através de sua irmã, Caroline Falero, diretora, atriz, educadora e artesã. “A escrita está muito associada à leitura, ao hábito de ler, e eu comecei a ler muito tarde, com 20, 21 anos. Minha irmã que me convenceu a ler. Não acreditava que pudesse ser legal.”
Desde então, nunca mais parou de ler. “Não foi só o livro, fui me encantando com coisas que eu percebi que eram daquele suporte, daquela plataforma. Sensações que não teria como experimentar vendo um filme, jogando videogame, era uma coisa do livro. E eu fiquei encantado com o que aquilo me provocava.”
E por não parar mais de ler, logo começou a escrever suas próprias histórias. Outro empurrão para a escrita tem ligação com as histórias em quadrinhos, as quais desenhava. “Eu não conseguia desenhar as coisas que eu queria, às vezes. Eu aprendi a desenhar muitas coisas, mas de repente eu queria fazer uma história que se passasse na cidade. Eu não sabia desenhar um monte de prédios, carro estacionado, o ambiente urbano. E toda vez que tu vai contar uma nova história no desenho é uma curva de aprendizado enorme, e na escrita eu me sentia mais livre, concebia as histórias e conseguia dar formas a elas, uma curva de aprendizado um pouco menor.”
Construindo a sua própria didática, indo atrás das ferramentas para desenvolver a escrita, sem a figura do mestre para apontar os caminhos, acabou se apaixonando pela gramática e tudo relacionado com a produção de textos.
Dos livros lidos na primeira fase do gosto pela leitura, Falero cita Edgar Wallace e Agatha Christie. “Quase tudo que parava na minha mão era estrangeiro, e era clássico. O primeiro livro nacional que li era um clássico também, do Machado de Assis, Quincas Borba e Memórias Póstumas. Me apaixonei por Machado, é um dos autores que eu fui atrás quando pude trabalhar e comprar meus próprios livros.” O escritor cita também o escritor japonês Eiji Yoshikawa, autor do romance Musashi. Segundo aponta Falero, Machado de Assis e o escritor japonês influenciaram sua literatura. “O fato de eu ter experimentado e gostado dos dois foi importante para mim porque me fez entender que não existe caminho certo, caminho errado, existem possibilidades.”
“Durante muito tempo me deixei levar por um pensamento preconceituoso que muita gente tem até hoje, que é de tu pensar que existe o jeito certo de escrever, e o jeito errado de escrever. Eu pensava assim. E durante muito tempo as coisas que eu escrevia era levando em conta a gramática normativa, não havia nada no meu texto da oralidade.”
Foi com uma conversa com o linguista baiano Marcos Oliveira que essa percepção mudou. “Foi como tirar uma venda dos meus olhos. Eu comecei a perceber a linguagem como uma ferramenta de dominação. Eu comecei a perceber que não é à toa que essa norma dita culta, que diz o que é correto, não vem do nada. E comecei a perceber que o que dizem que é errado, que falar assim é errado, que escrever assim é errado, é de uma população específica, que é tido como errado. E comecei a perceber que era violento comigo mesmo, inclusive o jeito que escrevia. E decidi experimentar trazer o modo como eu me expresso, como meus vizinhos se expressam, minha mãe, minha família, para as coisas que eu escrevo.”
O escritor conta que o retorno dessa experimentação foi positiva. Segundo recorda Falero, as pessoas comentaram que não tinham o hábito de ler, mas que lendo os seus textos não conseguiram parar. “Eu comecei a pensar nisso, o quanto as linguagens que são utilizadas na literatura não afugentam as pessoas. A gente vive em um país que toda vez que vão fazer as estatísticas, se chega à conclusão de que se lê pouco, de que poucas pessoas leem, e os que leem não leem muito. Fico pensando até que ponto o fato da linguagem muitas vezes ser afastada da vivência dessas pessoas contribui para isso.”
(Por: Fabiana Reinholz. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br. Acesso: em abril de 2026. Fragmento.)
Sobre o uso das aspas no texto, pode-se afirmar que introduzem um discurso que:
Afasta do leitor a possibilidade de réplica e/ou refutação.
Privilegia a fala do personagem mediante o discurso do enunciador.
Contribui para a construção da credibilidade acerca do que é expresso.
Evidencia, em sua estrutura, escolhas linguísticas típicas da linguagem formal.
Fortalece o vínculo entre enunciador e interlocutor, identificando-os no texto, ainda que simbolicamente.