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Os medos que nos definem
Por Trissia Ordovás Sartori
01 Leio um poeta que diz preferir se apresentar por aquilo que o assusta. E que essa seria
02 uma maneira mais rápida e verdadeira de conhecer alguém a fundo. De criar empatia, de tentar
03 diminuir a idealização, que costuma estragar tudo. Com o passar do tempo, percebemos que
04 as pessoas ao nosso redor não têm a menor obrigação de corresponder ao que imaginamos
05 sobre elas. Esse é um problema exclusivamente nosso e temos que aprender a lidar com ele.
06 Albert Camus, ao versar sobre o desencontro entre o esperado e aquilo que está posto, discorre
07 que “criamos o hábito de viver antes de adquirir o hábito de pensar”.
08 É de Camus, aliás, um dos primeiros parágrafos mais emblemáticos entre todas as
09 produções literárias já escritas. Em O Estrangeiro (1942), ao ler as primeiras linhas, o leitor se
10 depara com “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do
11 asilo: ‘Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pê...ames’. Isso não esclarece nada. Talvez
12 tenha sido ontem”. O personagem segue vivendo sem ilusões e nada mais parece assustá-lo.
13 Nem sempre nossos medos são claros e conscientes. Os meus mais óbvios são medo de
14 aranha e de altura. Não consigo ver aracnídeos sem entrar em pânico nem por foto, já altura
15 eu sublimo e faço concessões – entro em aviões sozinha, atravesso oceanos e me nego a deixar
16 de viajar “só” por causa disso. No entanto, jamais saltaria de paraquedas ou bungee jump . Mas
17 isso está longe de definir quem sou, ao contrário do que refere o poeta.
18 Os medos que podem me definir de forma mais precisa são mais profundos e difíceis de
19 serem verbalizados. Tenho medo de perder para sempre as pessoas de quem gosto. De ficar
20 indiferente _____ mazelas do cotidiano. De magoar _____ pessoas. De ser magoada. Do descaso.
21 De errar a dose das emoções. De não conseguir voltar atrás.
22 O medo declarado, nesse caso, pode significar a capacidade de se abrir ao outro, de
23 mostrar um lado obscuro, sem nenhum grau de atratividade, para ver se as pessoas ao redor
24 topam entrar no nosso mundo do jeito que somos – e apesar dele. Esse desnudamento pode
25 ser um convite a compartilhar a nossa versão sem filtros, crua, difícil e nem sempre amistosa,
26 ao lado de pessoas que ajudem a não paralisarmos diante daquilo que causa hesitação. Dividir
27 o que nos desagrada em nós pode ser uma forma também de exorcizarmos nosso lado sombrio,
28 de nos aceitarmos e nos revelarmos.
29 Dia desses, uma amiga disse acreditar que não temos o valor que supomos ter – e não
30 disse isso de forma depreciativa. Completou que somos apenas instrumentos, para aprender
31 com experiências ruins, atribuir sentido _____ elas e mostrar uns aos outros que somos testados
32 a desafiar nossos medos e crenças o tempo todo. E a graça da vida reside exatamente nisso:
33 na possibilidade de se (re)conhecer a cada instante, seja olhando para si ou se espelhando no
34 outro.
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/trissia-ordovas-sartori/ – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o emprego da palavra “pê...ames” no trecho a seguir, retirado do texto, analise as assertivas subsequentes:
“Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pê...ames”.
I. A lacuna pontilhada deve ser preenchida pela letra “z”.
II. Trata-se de substantivo masculino empregado, quase sempre, no plural.
III. Um sinônimo adequado para substituir “pê...ames”, exigindo concordância de gênero da palavra “sentidos”, é “condolências”.
Quais estão corretas?
Apenas I e II.
Apenas I e III.
Apenas II e III.
I, II e III.