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A sequência tipológica do trecho foi corretamente...

TEXTO 1


As vozes na rede


Isadora Faber usou o Facebook para mostrar as condições da escola onde estuda. Assim como ela, muita gente tem usado a web para se fazer ouvir


1 Nos imemoráveis tempos pré-internet, era muito difícil se fazer ouvir.

Havia poucas opções para um cidadão comum dar seu recado. Publicar

um livro ou um pequeno jornal tinha um custo muito grande. Que

dirá, então, fazer um programa de rádio ou televisão. Essa distância

5 começou a deixar de existir com a internet. Hoje, com 83,4 milhões

de brasileiros com acesso à rede, segundo a Ibope Nielsen Online, e 2

bilhões de pessoas no mundo, conforme a ONU, cada vez mais gente

pode publicar e fazer circular a informação.

Hoje podemos escrever sobre o assunto que quisermos e deixar

10 nosso texto disponível para o mundo. Com um pouco de paciência

e dedicação, podemos até fazer um pequeno programa de rádio.

“Não precisamos mais pedir ajuda ou permissão a profissionais para

dizer as coisas em público”, escreve o jornalista americano Clay Shirky

em seu livro A Cultura da Participação (Ed. Zahar).

15 E há uma infinidade de ferramentas que confirmam isso. Nas redes

sociais existe, em geral, a liberdade para comentar o que se bem

entender. Do jogo do seu time ao capítulo da novela, hoje temos os

meios de falar e até de ter quem nos ouça. O que antes ficava confinado

à mesa do bar ou ao jantar de família, hoje pode ganhar ressonância

20 em escala mundial.

A maioria de nós usa essa nova liberdade para comentar o

que é do nosso interesse imediato: nossos músicos favoritos,

algo que nos aconteceu, reclamar do tempo. Mas há quem veja

nessas ferramentas uma maneira de melhorar a vida de todos.


25 Fome na escola


Martha Payne, 8 anos, estudante escocesa, talvez não imaginasse

que seu blog NeverSeconds pudesse ter o impacto que teve. Seu pai,

David, sugeriu que ela criasse o site porque a garota desejava escrever

todos os dias. Quando teve de decidir sobre o que falaria diariamente,

30 ela achou uma boa ideia retratar o almoço da escola. Inventou um

sistema de notas para a comida, colocou uma câmera na mochila e, com

autorização da escola, inaugurou sua aventura gastronômica.

Os posts de Martha acabaram revelando mais do que sua vontade de

ser jornalista. O pai começou a entender por que a filha sempre chegava

35 em casa faminta: as refeições eram ralas, com muita “porcaria” e poucos

legumes. O sistema de avaliação incluía um tópico chamado “presença

de fios de cabelo”. Quando foi checar com Martha se ela não estava

exagerando, David se surpreendeu ao saber que aquilo era comum.

Não demorou e o NeverSeconds começou a circular pelo mundo.

40 Por meio das redes sociais, as pessoas começaram a espalhar o blog - e

a apoiar Martha. A repercussão foi tamanha que a mídia tradicional

procurou os Paynes para saber mais sobre a jovem tímida que

avaliava as (pobres) refeições na pequena Argyl, na Escócia.

Estava claro que as refeições servidas na escola estavam muito

45 longe de serem saudáveis ou suficientes. Sem querer, Martha expôs um

problema que estava longe dos olhos de todos ao colocá-lo na internet.

A reação das autoridades locais não foi boa. Apesar de a escola ter

dado permissão a Martha, o Conselho de Argyl e Bute (uma espécie

de prefeitura local), proibiu a menina de continuar a publicar fotos de

50 suas refeições.

A revolta se espalhou pela internet. Em vez de louvar a iniciativa, os

políticos reagiram com proibição. “As crianças sempre tiveram opiniões

e falaram sobre elas, mas, quando seu público se torna global e elas

escrevem sobre o que é constrangedor para o governo, eles entram em

55 pânico e tomam más decisões, como tentar silenciar Martha”, diz o pai

da garota.

A estratégia teve efeito inverso. Silenciada, Martha ganhou mais

visibilidade e apoio por todo o mundo. O chef-celebridade Jamie Oliver,

que milita em prol da melhoria das refeições escolares, apoiou o Never

60 Seconds e cobrou publicamente uma retratação das autoridades. “Fique

firme”, disse Oliver pelo Twitter. Antes restrito ao Reino Unido, o caso gan

hou repercussão mundial. Revistas e jornais do mundo todo noticiaram

a história da menina que foi censurada porque dava notas ao seu almoço



Diários brasileiros


65 A ferramenta escolhida por Isadora Faber, 12, foi o Facebook. E seus

relatos e fotos iam além do almoço. Isadora pintou um retrato geral da

Escola Maria Tomázia Coelho, em Florianópolis (SC). Na página Diário

de Classe, criada em julho de 2012, ela coloca fotos de bebedouros e

bancos quebrados e banheiros que não funcionam.

70 A história teve um percurso parecido com a de Martha Payne. O

Diário de Classe começou pequeno e, na medida em que ganhou

repercussão nacional, Isadora viu sua página chegar a mais de 500 mil

seguidores. Jornais, sites e televisões do país todo mostraram o caso da

garota que cobrava das autoridades melhorias em sua escola. Martha

75 foi, de fato, a inspiração: “Estava conversando sobre os problemas da

escola com minha irmã mais velha e ela me mostrou o blog da Martha.

Ela tinha visto em uma reportagem”.

Apesar de não ter sofrido a mesma proibição da colega britânica,

Isadora teve de enfrentar protestos de pais e professores insatisfeitos.

80 Em novembro passado, a casa onde mora com a família foi apedrejada.

A jovem catarinense se inspirou em Martha Payne, mas também serviu

de inspiração. Depois de ler reportagens sobre o Diário de Classe,

a médica Luisa Portugal, 25, decidiu que era hora de mostrar a todos

o que se passava no posto de saúde onde ela trabalhava, em Goiânia

85 (GO). “Quando deparei com as dificuldades estruturais, a falta de

profissionais, a falta de orientação à população, tive vontade de fazer

alguma coisa”, conta ela. Ativado em outubro de 2012, o Diário de um

Posto de Saúde cobrava não só melhorias estruturais, como o conserto

do ar-condicionado, mas também o pagamento aos médicos do local.


90 Transparência que muda


Os diários das três jovens chamaram a atenção da mídia e dos

internautas, mas não só isso. Conseguiram impulsionar mudanças

concretas que talvez não acontecessem caso as páginas não tivessem

dado visibilidade aos problemas. As refeições melhoraram na escola

95 de Martha Payne, consertos foram feitos na de Isadora Faber e Luisa

Portugal até recebeu elogios das autoridades locais, que não se

incomodaram com sua página.

Essa é uma grande novidade. Para Ronaldo Lemos, fundador e

diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da

100 Fundação Getúlio Vargas (FGV), “a tendência é que a rede seja cada

vez mais usada para dar transparência e visibilidade a questões de

interesse público. E com isso aperfeiçoar os serviços”. David Payne, pai

de Martha, diz que as coisas eram diferentes quando ele era criança:

“Eu tinha opiniões, mas não tinha como compartilhá-las. A internet

105 fez do mundo um lugar mais justo para as crianças, porque agora elas

podem vocalizar o que pensam”.

A possibilidade está aberta não só para as crianças, é claro. Mas

parece que elas é que têm feito melhor proveito dessa abertura. “A

reação natural de um garoto ou garota que cresceu com a internet é

110 usar a rede para dar visibilidade a problemas que não deveriam estar

acontecendo”, diz Lemos. “Ao expor situações de precariedade, isso

chama o poder público a ser responsabilizado, e o incentiva a cumprir

suas funções como esperado.”

Mas é preciso ter consciência de que essas são apenas ferramentas.

115 O essencial está nas pessoas, não no meio que utilizam. Clay Skirky diz

que “a tecnologia possibilita esses comportamentos, mas não pode

causá-los”. Da mesma opinião partilha Lemos: “Denunciar e cobrar é

só o primeiro passo, a reação instintiva na rede. Às vezes isso funciona,

outras vezes não. Por isso, a questão é pensar nos passos seguintes”.

120 É importante a vontade de que as coisas mudem e disposição para

mostrar os problemas. E isso não se faz da noite para o dia. Martha

Payne, que indiretamente inspirou Isadora e Luiza, dá uma pista de

como podemos começar a ter mudanças mais significativas: “Nós

sempre fazemos as refeições juntos e conversamos muito. Se algo me

125 incomoda, sei que posso falar. Se acho que algo é injusto ou errado,

explico para todos da minha família e eles podem concordar ou não”.

Cada vez temos mais possibilidades de mostrar o que está errado

com nossos bairros e escolas. A questão é saber se estamos preparados

para discutir, concordar e discordar.


RODRIGUEZ, Diogo Ântônio. As vozes na rede. In: Revista mais simples. Rio de Janeiro: Globo. 1 mar. 2013.

A sequência tipológica do trecho foi corretamente identificada, entre parênteses, em


A

“(...) as refeições eram ralas, com muita “porcaria” e poucos legumes. O sistema de avaliação incluía um tópico chamado “presença de fios de cabelo”(...)” (INJUNção)


B

“Não demorou e o NeverSeconds começou a circular pelo mundo. Por meio das redes sociais, as pessoas começaram a espalhar o blog – e a apoiar Martha.” (narração)


C

“Estava conversando sobre os problemas da escola com minha irmã mais velha e ela me mostrou o blog da Martha. Ela tinha visto em uma reportagem.” (exposição)


D

“Denunciar e cobrar é só o primeiro passo, a reação instintiva na rede. Às vezes isso funciona, outras vezes não. Por isso, a questão é pensar nos passos seguintes.” (injunção)


E

“Nos imemoráveis tempos pré-internet, era muito difícil se fazer ouvir. Havia poucas opções para um cidadão comum dar seu recado. Publicar um livro ou um pequeno jornal tinha um custo muito grande.” (descrição)