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No texto 1, As proformas pronominais “isso” (linha 31)...

Leia os textos 1 e 2 a seguir para responder às questões de 1 a 6.


TEXTO 1

Das coisas que se podem colocar em dúvida


  1. Há já algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas
  2. opiniões como verdadeiras, e de que o conhecimento que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados
  3. não podia ser senão mui duvidoso e incerto; de modo que me era necessário tentar seriamente, uma vez em
  4. minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente desde os
  5. fundamentos, se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências. [...]
  6. Agora, pois, que meu espírito está livre de todos os cuidados, e que consegui um repouso
  7. assegurado numa pacífica solidão, aplicar-me-ei seriamente e com liberdade em destruir em geral todas as
  8. minhas antigas opiniões. Ora, não será necessário, para alcançar esse desígnio, provar que todas elas são
  9. falsas, o que talvez nunca levasse a cabo; mas, uma vez que a razão já me persuade de que não devo
  10. menos cuidadosamente impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis,
  11. do que às que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor motivo de dúvida que eu nelas encontrar
  12. bastará para me levar a rejeitar todas.
  13. E, para isso, não é necessário que examine cada uma em particular, o que seria um trabalho
  14. infinito; mas, visto que a ruína dos alicerces carrega necessariamente consigo todo o resto do edifício,
  15. dedicar-me-ei inicialmente aos princípios sobre os quais todas as minhas antigas opiniões estavam
  16. apoiadas.
  17. Tudo o que recebi, até presentemente, como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos
  18. ou pelos sentidos: ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e é de prudência
  19. nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez.
  20. Mas, ainda que os sentidos nos enganem às vezes, no que se refere às coisas pouco sensíveis e
  21. muito distantes, encontramos talvez muitas outras, das quais não se pode razoavelmente duvidar, embora
  22. as conhecêssemos por intermédio deles: por exemplo, que eu esteja aqui, sentado junto ao fogo, vestido
  23. com um chambre, tendo este papel entre as mãos e outras coisas desta natureza. E como poderia eu negar
  24. que estas mãos e este corpo sejam meus? [...].
  25. Todavia, devo aqui considerar que sou homem e, por conseguinte, que tenho o costume de dormir
  26. e de representar, em meus sonhos, as mesmas coisas, ou algumas vezes menos verossímeis, que esses
  27. insensatos em vigília. Quantas vezes ocorreu-me sonhar, durante a noite, que estava neste lugar, que
  28. estava vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse inteiramente nu dentro de meu leito? Parece-me
  29. agora que não é com olhos adormecidos que contemplo este papel; que esta cabeça que eu mexo não está
  30. dormente; que é com desígnio e propósito deliberado que estendo esta mão e que a sinto: o que ocorre no
  31. sono não parece ser tão claro nem tão distinto quanto tudo isso. Mas, pensando cuidadosamente nisso,
  32. lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões. E, detendo-me
  33. neste pensamento, vejo tão manifestamente que não há quaisquer indícios concludentes, nem marcas
  34. assaz certas por onde se possa distinguir nitidamente a vigília do sono, que me sinto inteiramente pasmado:
  35. e meu pasmo é tal que é quase capaz de me persuadir de que estou dormindo.
  36. Suponhamos, pois, agora, que estamos adormecidos e que todas essas particularidades, a saber
  37. que abrimos os olhos, que mexemos a cabeça, que estendemos as mãos, e coisas semelhantes, não
  38. passam de falsas ilusões; e pensemos que talvez nossas mãos, assim como todo o nosso corpo, não são
  39. tais como os vemos. [...]
  40. Suponho, portanto, que todas as coisas que vejo são falsas; persuado-me de que jamais existiu
  41. de tudo quanto minha memória referta de mentiras me representa; penso não possuir nenhum sentido; creio
  42. que o corpo, a figura, a extensão, o movimento e o lugar são apenas ficções de meu espírito. O que poderá,
  43. pois, ser considerado verdadeiro? Talvez nenhuma outra coisa a não ser que nada há no mundo de certo.
  44. Mas que sei eu, se não há nenhuma outra coisa diferente das que acabo de julgar incertas, da
  45. qual não se possa ter a menor dúvida? Não haverá algum Deus, ou alguma outra potência, que me ponha
  46. no espírito tais pensamentos? Isso não é necessário; pois talvez seja eu capaz de produzi-los por mim
  47. mesmo. Eu então, pelo menos, não serei alguma coisa? Mas já neguei que tivesse qualquer sentido ou
  48. qualquer corpo. Hesito, no entanto, pois que se segue daí? Serei de tal modo dependente do corpo e dos
  49. sentidos que não possa existir sem eles? Mas eu me persuadi de que nada existia no mundo, que não
  50. havia nenhum céu, nenhuma terra, espíritos alguns, nem corpos alguns: não me persuadi também,
  51. portanto, de que eu não existia? Certamente não, eu existia sem dúvida, se é que eu me persuadi, ou,
  52. apenas, pensei alguma coisa. Mas há algum, não sei qual. De sorte que, após ter pensado bastante nisto e
  53. de ter examinado cuidadosamente todas as coisas, cumpre enfim concluir e ter por constante que esta
  54. proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a enuncio ou que a
  55. concebo em meu espírito.
  56. Mas não conheço ainda bastante claramente o que sou, eu que estou certo de que sou; de sorte
  57. que doravante é preciso que eu atente com todo cuidado, para não tomar imprudentemente alguma outra
  58. coisa por mim, e assim para não equivocar-me neste conhecimento que afirmo ser mais claro e mais
  59. evidente do que todos os que tive até agora.


DESCARTES, René. Meditações metafísicas. (Os Pensadores) 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 85-92. (Adaptado).


TEXTO 2


Discurso do Método


Quarta Parte


  1. Não sei se deva falar-vos das primeiras meditações que aí realizei; pois são tão metafísicas e tão
  2. pouco comuns, que não serão, talvez, do gosto de todo mundo. E, todavia, a fim de que se possa julgar se
  3. os fundamentos que escolhi são bastante firmes, vejo-me, de alguma forma, compelido a falar-vos delas.
  4. De há muito observara que, quanto aos costumes, é necessário às vezes seguir opiniões, que sabemos
  5. serem muito incertas, tal como se fossem indubitáveis, como já foi dito acima; mas, por desejar então
  6. ocupar-me somente com a pesquisa da verdade, pensei que era necessário agir exatamente ao contrário, e
  7. rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se,
  8. após isso, não restaria algo em meu crédito, que fosse inteiramente indubitável.
  9. Assim, porque os nossos sentidos nos enganam às vezes, quis supor que não havia coisa alguma
  10. que fosse tal como eles nos fazem imaginar. E, porque há homens que se equivocam ao raciocinar, mesmo
  11. no tocante às mais simples matérias de Geometria, e cometem aí paralogismos, rejeitei como falsas,
  12. julgando que estava sujeito a falhar como qualquer outro, todas as razões que eu tomara até então por
  13. demonstrações. E enfim, considerando que todos os mesmos pensamentos que temos quando despertos
  14. nos podem também ocorrer quando dormimos, sem que haja nenhum, nesse caso, que seja verdadeiro,
  15. resolvi fazer de conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais
  16. verdadeiras que as ilusões de meus sonhos. Mas, logo em seguida, adverti que, enquanto eu queria assim
  17. pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando
  18. que esta verdade – eu penso, logo existo – era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes
  19. suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o
  20. primeiro princípio da Filosofia que procurava.


DESCARTES, René. Discurso do Método. (Os Pensadores) 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 46. (Adaptado).

No texto 1, As proformas pronominais “isso” (linha 31), “essas” (linha 36) e “esta” (linha 53) desempenham, respectivamente, função


A

anafórica – catafórica – catafórica


B

anafórica – anafórica – catafórica


C

anafórica – anafórica – anafórica


D

catafórica – anafórica – anafórica


E

catafórica – catafórica – catafórica