Leia os textos 1 e 2 a seguir para responder às questões de 1 a 6.
TEXTO 1
Das coisas que se podem colocar em dúvida
- Há já algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas
- opiniões como verdadeiras, e de que o conhecimento que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados
- não podia ser senão mui duvidoso e incerto; de modo que me era necessário tentar seriamente, uma vez em
- minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente desde os
- fundamentos, se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências. [...]
- Agora, pois, que meu espírito está livre de todos os cuidados, e que consegui um repouso
- assegurado numa pacífica solidão, aplicar-me-ei seriamente e com liberdade em destruir em geral todas as
- minhas antigas opiniões. Ora, não será necessário, para alcançar esse desígnio, provar que todas elas são
- falsas, o que talvez nunca levasse a cabo; mas, uma vez que a razão já me persuade de que não devo
- menos cuidadosamente impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis,
- do que às que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor motivo de dúvida que eu nelas encontrar
- bastará para me levar a rejeitar todas.
- E, para isso, não é necessário que examine cada uma em particular, o que seria um trabalho
- infinito; mas, visto que a ruína dos alicerces carrega necessariamente consigo todo o resto do edifício,
- dedicar-me-ei inicialmente aos princípios sobre os quais todas as minhas antigas opiniões estavam
- apoiadas.
- Tudo o que recebi, até presentemente, como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos
- ou pelos sentidos: ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e é de prudência
- nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez.
- Mas, ainda que os sentidos nos enganem às vezes, no que se refere às coisas pouco sensíveis e
- muito distantes, encontramos talvez muitas outras, das quais não se pode razoavelmente duvidar, embora
- as conhecêssemos por intermédio deles: por exemplo, que eu esteja aqui, sentado junto ao fogo, vestido
- com um chambre, tendo este papel entre as mãos e outras coisas desta natureza. E como poderia eu negar
- que estas mãos e este corpo sejam meus? [...].
- Todavia, devo aqui considerar que sou homem e, por conseguinte, que tenho o costume de dormir
- e de representar, em meus sonhos, as mesmas coisas, ou algumas vezes menos verossímeis, que esses
- insensatos em vigília. Quantas vezes ocorreu-me sonhar, durante a noite, que estava neste lugar, que
- estava vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse inteiramente nu dentro de meu leito? Parece-me
- agora que não é com olhos adormecidos que contemplo este papel; que esta cabeça que eu mexo não está
- dormente; que é com desígnio e propósito deliberado que estendo esta mão e que a sinto: o que ocorre no
- sono não parece ser tão claro nem tão distinto quanto tudo isso. Mas, pensando cuidadosamente nisso,
- lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões. E, detendo-me
- neste pensamento, vejo tão manifestamente que não há quaisquer indícios concludentes, nem marcas
- assaz certas por onde se possa distinguir nitidamente a vigília do sono, que me sinto inteiramente pasmado:
- e meu pasmo é tal que é quase capaz de me persuadir de que estou dormindo.
- Suponhamos, pois, agora, que estamos adormecidos e que todas essas particularidades, a saber
- que abrimos os olhos, que mexemos a cabeça, que estendemos as mãos, e coisas semelhantes, não
- passam de falsas ilusões; e pensemos que talvez nossas mãos, assim como todo o nosso corpo, não são
- tais como os vemos. [...]
- Suponho, portanto, que todas as coisas que vejo são falsas; persuado-me de que jamais existiu
- de tudo quanto minha memória referta de mentiras me representa; penso não possuir nenhum sentido; creio
- que o corpo, a figura, a extensão, o movimento e o lugar são apenas ficções de meu espírito. O que poderá,
- pois, ser considerado verdadeiro? Talvez nenhuma outra coisa a não ser que nada há no mundo de certo.
- Mas que sei eu, se não há nenhuma outra coisa diferente das que acabo de julgar incertas, da
- qual não se possa ter a menor dúvida? Não haverá algum Deus, ou alguma outra potência, que me ponha
- no espírito tais pensamentos? Isso não é necessário; pois talvez seja eu capaz de produzi-los por mim
- mesmo. Eu então, pelo menos, não serei alguma coisa? Mas já neguei que tivesse qualquer sentido ou
- qualquer corpo. Hesito, no entanto, pois que se segue daí? Serei de tal modo dependente do corpo e dos
- sentidos que não possa existir sem eles? Mas eu me persuadi de que nada existia no mundo, que não
- havia nenhum céu, nenhuma terra, espíritos alguns, nem corpos alguns: não me persuadi também,
- portanto, de que eu não existia? Certamente não, eu existia sem dúvida, se é que eu me persuadi, ou,
- apenas, pensei alguma coisa. Mas há algum, não sei qual. De sorte que, após ter pensado bastante nisto e
- de ter examinado cuidadosamente todas as coisas, cumpre enfim concluir e ter por constante que esta
- proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a enuncio ou que a
- concebo em meu espírito.
- Mas não conheço ainda bastante claramente o que sou, eu que estou certo de que sou; de sorte
- que doravante é preciso que eu atente com todo cuidado, para não tomar imprudentemente alguma outra
- coisa por mim, e assim para não equivocar-me neste conhecimento que afirmo ser mais claro e mais
- evidente do que todos os que tive até agora.
DESCARTES, René. Meditações metafísicas. (Os Pensadores) 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 85-92. (Adaptado).
TEXTO 2
Discurso do Método
Quarta Parte
- Não sei se deva falar-vos das primeiras meditações que aí realizei; pois são tão metafísicas e tão
- pouco comuns, que não serão, talvez, do gosto de todo mundo. E, todavia, a fim de que se possa julgar se
- os fundamentos que escolhi são bastante firmes, vejo-me, de alguma forma, compelido a falar-vos delas.
- De há muito observara que, quanto aos costumes, é necessário às vezes seguir opiniões, que sabemos
- serem muito incertas, tal como se fossem indubitáveis, como já foi dito acima; mas, por desejar então
- ocupar-me somente com a pesquisa da verdade, pensei que era necessário agir exatamente ao contrário, e
- rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se,
- após isso, não restaria algo em meu crédito, que fosse inteiramente indubitável.
- Assim, porque os nossos sentidos nos enganam às vezes, quis supor que não havia coisa alguma
- que fosse tal como eles nos fazem imaginar. E, porque há homens que se equivocam ao raciocinar, mesmo
- no tocante às mais simples matérias de Geometria, e cometem aí paralogismos, rejeitei como falsas,
- julgando que estava sujeito a falhar como qualquer outro, todas as razões que eu tomara até então por
- demonstrações. E enfim, considerando que todos os mesmos pensamentos que temos quando despertos
- nos podem também ocorrer quando dormimos, sem que haja nenhum, nesse caso, que seja verdadeiro,
- resolvi fazer de conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais
- verdadeiras que as ilusões de meus sonhos. Mas, logo em seguida, adverti que, enquanto eu queria assim
- pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando
- que esta verdade – eu penso, logo existo – era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes
- suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o
- primeiro princípio da Filosofia que procurava.
DESCARTES, René. Discurso do Método. (Os Pensadores) 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 46. (Adaptado).