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Compreende-se que a invenção do letramento no Brasil se deu por caminhos diferentes daqueles que explicam a invenção do termo em outros países, como França e Estados Unidos. Enquanto nesses outros países a discussão do letramento se fez e se faz de forma independente em relação à discussão da alfabetização, no Brasil ela surge sempre enraizada no conceito de alfabetização, o que tem levado, apesar da diferenciação sempre proposta na produção acadêmica, a uma inadequada e inconveniente fusão dos dois processos, com prevalência do conceito de letramento. Refletindo sobre o tema, podemos afirmar que
várias causas podem ser apontadas para a perda de especificidade do processo de alfabetização, como a reorganização do tempo escolar com a implantação do sistema de ciclos, a qual, ao lado dos aspectos positivos, sem dúvida, traz uma preterição de metas e objetivos a serem atingidos gradativamente ao longo do processo de escolarização; o princípio da progressão continuada, que, mal concebido e mal aplicado, pode resultar em descompromisso com o desenvolvimento gradual e sistemático de habilidades e competências.
dirigindo o foco para o processo de construção do sistema de escrita pela criança, passou-se a considerar a natureza do objeto de conhecimento em construção, que é, fundamentalmente, um objeto linguístico constituído, quer se considere o sistema alfabético, quer o sistema ortográfico, de relações convencionais e frequentemente arbitrárias entre fonemas e grafemas. Em outras palavras, privilegiando a faceta psicológica da alfabetização, clareou-se sua faceta linguística, fonética e fonológica.
apenas através do convívio intenso com o material escrito que circula nas práticas sociais, ou seja, do convívio com a cultura escrita, a criança se alfabetiza. O letramento, como processo de aquisição do sistema convencional de uma escrita alfabética e ortográfica, foi, assim, de certa forma obscurecida pela alfabetização, porque esta acabou por frequentemente prevalecer sobre aquela, que, como consequência, perde sua especificidade.
dissociar alfabetização e letramento é uma garantia de que, no quadro das atuais concepções psicológicas, linguísticas e psicolinguísticas de leitura e escrita, a entrada da criança (e também do adulto analfabeto) no mundo da escrita ocorre simultaneamente pelos processos de aquisição do sistema convencional de escrita a alfabetização, e pelo desenvolvimento de habilidades de uso desse sistema em atividades de leitura e escrita, nas práticas sociais que envolvem a língua escrita o letramento.