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“Toda compreensão e tratamento dados a questões relativas às moradias populares, as chamadas favelas, pautam-se pela ideia de falta e carência. Segundo essa visão estereotipada e assegurada pela mídia, a população das favelas está privada de serviços básicos, como saneamento, energia elétrica, pavimentação, segurança, Justiça e educação. Ainda de acordo com isso, seus moradores seriam carentes também de valores cívicos, como respeito, integridade, honestidade, disciplina, sendo, por essas razões, retratados como um meio dominado pela desordem, a bagunça e a desgraça. (...) podemos dizer que cada morador da favela tem uma maneira diferente de se identificar com os significantes que lhe são oferecidos e que lhe nomeiam, como ‘bandido’ ou carente’. Essas identidades têm sentidos diferentes, mas, acima de tudo, cada um de nós possui um modo de viver e de se utilizar delas que é particular e não passa pelo sentido. É preciso, portanto, chegar perto desse núcleo que determina cada modo de viver, para que, a partir do encontro com o não-sentido, produzam-se novos sentidos. Em outras palavras, no momento em que o sujeito está absolutamente colado a uma identidade, o analista pode ajudar a criar um intervalo entre os dois, permitindo a ele manejá-la de maneira plástica e mais favorável.”
Considere esse excerto extraído da coletânea Psicanálise na favela - Projeto Digaí-Maré: a clínica dos grupos (Rio de Janeiro: Associação Digaí-Maré, 2008, p. 117; p. 127) e responda as questões 40, 41 e 42.
Conforme a perspectiva clínica lacaniana, NÃO se pode inferir do excerto acima:
As práticas psicológicas clínicas que se reduzem à dimensão do sentido tendem a alienar os sujeitos aos significantes fornecidos pelo Outro social.
Há um sujeito do direito que tende a ser provido de suas presumidas carências pelas políticas públicas assistencialistas intersetoriais, cuja resultante tende a ser sua maior alienação ao Outro social.
Há um sujeito do inconsciente que, se escutado clinicamente orientado ao que de mais singular nele “ex-iste” (existe fora), tende a se separar dos significantes do Outro social que o marcaram, produzindo novos significantes singulares.
A noção de identidade, por alienar o sujeito ao Outro social, não tende a ser levada em consideração no processo psicoterapêutico pelas práticas clínicas psicológicas que visam à singularidade.
A noção de identidade, reduzida às dimensões psíquicas imaginária e simbólica, tende a ser desconstruída no processo psicoterapêutico pelas práticas clínicas psicológicas que visam ao real.