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INSTRUÇÃO: Leia, com atenção, o texto 01 a seguir para responder às questões que a ele se referem.
Texto 01
SEJA VOCÊ MESMO
1 É um almoço entre amigos e familiares em uma tarde de novembro. Todos estão sentados em volta de uma mesa
oval. Da cozinha, a anfitriã aparece sempre com mais pratos deliciosos. Em um momento da comemoração, Elliot,
um dos presentes, levanta-se e vai até um espelho de corpo inteiro numa parede oposta. Ele se inclina sobre seu
reflexo e beija a própria imagem. Volta para a mesa e, pouco tempo depois, repete a mesma ação: se aproxima do
5 espelho e tasca-lhe um beijo sobre seu eu refletido. Elliot repete o gesto outras muitas vezes sem nem perceber que
está sendo observado pelas outras pessoas. Mas, para aquele garotinho de 1 ano e meio, a plateia não lhe faria
muita diferença: ele parece estar envolvido na alegria de ser ele mesmo.
Talvez você tenha, assim como eu, achado esquisita a atitude de Elliot antes de saber que se tratava de uma
criança. Parecia uma pessoa estranhamente narcisista ou, quem sabe, alguém que bebeu mais taças de vinho do
10 que deveria. Mas a mensagem por trás dessa singela cena infantil me diz algo suave sobre a liberdade de ser quem
somos — não importa quem esteja olhando. E me faz refletir sobre como os tantos julgamentos (nossos e dos
outros) que vamos carregando ao longo da vida vão tornando a imagem da nossa essência refletida nos espelhos
tão distorcida. Por isso, o convite para percorrer as próximas letras deste texto é com o desejo de que, juntos,
possamos investigar o que nos distancia de quem a gente é. E, mais do que isso, como é possível ver o valor em ser
15 quem somos, reconhecendo nossas vontades e expressando isso de um jeito livre, alegre e pleno.
A história de Elliot está no livro A Vida Ama Você (Sextante), de Robert Holden e Louise Hay, que estavam no dia
do almoço onde tudo aconteceu. Segundo contam Robert e Louise, bebês são como pássaros da alma que voam
sobre o corpo sem terem pousado sobre ele. “Quando se olham no espelho, não apontam para o próprio corpo e
pensam ‘aquele sou eu’, ou ‘aquilo é meu’. Eles são pura consciência, não há noção do Eu. Não têm autoimagem
20 nem construíram uma persona ou uma máscara. Ainda não têm neuroses e estão plenos da bênção original do
espírito. Eles se identificam apenas com a sua face original, como os budistas chamam — a face da alma”, escreve
Robert. A questão é que, ao longo da nossa jornada, muitos julgamentos e críticas começam a nos impedir de ver
essa face original. Aos poucos, o amor vai sendo substituído por um sentimento de separação, de inadequação, de
medo de não agradar. Mas essa beleza de ser quem somos ainda está em nós, mesmo que escondida. “Podemos
25 vê-la novamente no momento em que paramos de nos julgar, mas essas críticas agora são um hábito com o qual
nos identificamos. Nós nos convencemos de que julgar equivale a enxergar, mas na verdade é o oposto. Você só
passa a enxergar de verdade quando para de julgar.”
Aos poucos, nosso valor vai sendo colocado em xeque. Surge o sentimento de nunca ser bom o bastante. Bonito
o bastante, inteligente o bastante, criativo o bastante… Nunca somos bons o suficiente. E expor quem a gente é
30 parece não ser algo muito seguro ou promissor, seja pelo nosso cabelo, corpo, ideias, jeito de estar no mundo.
Vamos criando máscaras para agradar, forjamos um jeito de ser e não acreditamos que a nossa essência é segura
de ser verdadeiramente amada. O curioso é que agimos assim muitas vezes sem nem ter consciência disso. “Esse
medo essencial — ‘eu não mereço ser amado’ — não passa de uma história que só parece real porque nos
identificamos com ela. Isso nos impede de gostar da nossa própria companhia e nos afasta de nós mesmos”,
35 escrevem Robert e Louise. [...]
A questão é que, mergulhados nesse caldo de autocríticas, de julgamentos, de não nos sentirmos bons o
bastante e de uma cultura que parece aceitar só o que está dentro dos padrões dualistas de certo e errado, pode
ficar até difícil saber o que é nosso mesmo. Quais são nossos gostos, opiniões e verdades? Um caminho que a
coach Marizete sugere é que façamos perguntas a nós mesmos. Uma escolha pragmática baseada em perguntas
40 constantes. “Quando você se sente fragilizado, ou deprimido, ou desencaixado, como seria perguntar: ‘Quem eu
estou sendo aqui? Se eu estivesse sendo eu, o que eu escolheria? Onde estaria e com quem?’. As perguntas
empoderam, abrem espaço para a consciência e criam possibilidades”, diz. Também podemos abrir um caderno e
nele listar o que gostamos ou não e quais valores estão ligados a nós. Parecem perguntas simples, mas trazem um
contato com a gente que muitas vezes estava esquecido.
45 Seguir rumo a quem você é de verdade é fazer essa escolha de não agradar o tempo todo. E estar bem com isso.
É aceitar que os outros lidem com suas tarefas sobre o que esperavam de você. É entender que, apesar das críticas,
a sensação de fazer e de ser o que lhe parece certo é muito mais saborosa. Nem todo mundo precisa entender, e
tudo bem. “Quanto mais presentes e conscientes de que nossas escolhas e pontos de vista criam a nossa realidade,
mais podemos escolher ser nós mesmos, independentemente dos julgamentos. Tudo é na verdade energia — até o
50 julgamento —, se movendo e criando o ponto de vista da separação, de que estamos errados quando não somos
parecidos ou seguimos os padrões da dita normalidade”, me diz, por e-mail, Marizete. “O julgamento é só uma
mentira que você comprou como verdade absoluta para deixar de ser quem você é.” [...]
Começo a refletir sobre como a vida seria sem graça se pessoas incríveis que admiramos pela forma como se
colocam no mundo tivessem deixado de expressar quem elas são pelo medo do julgamento. Quantos jeitos novos de
55 ver a vida seriam desperdiçados? Um dos meus pintores preferidos, o catalão Salvador Dalí, conhecido pela sua arte
surrealista — e também pelo seu bigode peculiar e suas expressões engraçadas — tem uma frase que diz: “Todas
as manhãs, quando acordo, experimento um prazer supremo: o de ser Salvador Dalí. Então pergunto a mim
mesmo, maravilhado, que coisa prodigiosa esse tal de Salvador Dalí vai fazer hoje”. Eu não sou Salvador Dalí, nem você.
Mas, todos os dias, podemos experimentar esse prazer supremo de ser quem somos. Qual coisa prodigiosa você vai
60 fazer hoje?
Disponível em: <http://vidasimples.uol.com.br/noticias/capa/seja-voce-mesmo.phtml>. Acesso em: 6 março 2019. Adaptado
Tendo em vista a sua macroestrutura, pode-se afirmar que, quanto à tipologia, trata-se de um texto, predominantemente,
narrativo.
descritivo.
argumentativo.
instrucional.