

Seu próximo nível começa aqui
Seu desenvolvimento não pode ter limites. Garanta sua Assinatura Ilimitada e libere uma preparação completa com os melhores professores do Brasil.
A CRISE DA PERCEPÇÃO
1 Estamos já no início do século XXI. Como num audacioso
sonho de ficção científica, uma época que até pouco tempo pare
cia distante é agora real e faz parte concretamente da nossa reali
dade. O progresso material, alimentado pelo crescente desenvolvi
5 mento científico e tecnológico, tem alçado o homem a níveis de
vida jamais sonhados. Em questão de segundos, pode-se falar com
o outro lado do mundo ao toque de um botão; astronautas passei
am no espaço cósmico como se estivessem nos gramados de
suas casas – e os avanços da informática possibilitam a solução
10 de problemas cada vez mais complexos.
A face cruel de todo esse progresso, no entanto, está ex
pressa nas manchetes de jornais e nos noticiários de televisão,
nos discursos dos parlamentares e no matraquear dos camelôs,
nas conversas das donas-de-casa, nos supermercados e nas le
15 tras das canções populares.
É a crise, palavra que tem adquirido um significado tão pró
prio nos últimos tempos que já passa a prescindir de adjetivação.
Crise moral? Crise política? Crise econômica? Crise de valores?
Crise das instituições? Não importa. É a crise e pronto. Dela se
20 ocupam intelectuais e políticos, na tentativa de explicá-la, outros de
contorná-la ou resolvê-la. Dificílima tarefa, já que o seu aspecto é
múltiplo e a sua localização difusa.
A crise não é somente brasileira. Nem é somente econômi
ca, ou política, ou institucional. É uma crise planetária, e que abran
25 ge aspectos os mais diversos. Seu principal sintoma parece ser a
sensação incômoda, e de certo modo frustrante, de que o progres
so científico e tecnológico não trouxe as conquistas esperadas no
terreno da vida individual e coletiva.
Essa sensação se traduz pela falta de habilidade do ho
mem em lidar com o progresso e a tecnologia que ele próprio criou.
Sinais dessa inabilidade são a poluição incontrolável do ar, da água
e dos alimentos, a destruição das florestas e da camada de ozônio
que envolve a Terra, o lixo tóxico, a extinção de espécies de ani
mais e a contaminação do subsolo. No campo da saúde, presenci
30 amos, de um lado, a mortalidade infantil e a desnutrição, e, de ou
tro, o seu contraponto: a obesidade, as doenças cardíacas, o cân
cer e o diabetes, doenças da superabundância alimentar e da falta
de atividade física. Males medievais, como a cólera e a dengue,
convivem com pragas pós-modernas, como a Aids. Os distúrbios
40 de comportamento, os crimes, os suicídios, os assassinatos, as
dependências de drogas, em especial o álcool e a cocaína, o coti
diano violento e o desemprego são ainda outros aspectos dessa
realidade contraditória em que vivemos.
Pergunta-se então por que os especialistas – economistas,
sociólogos, psicólogos, cientistas políticos, médicos, pedagogos –,
apoiados nas mais modernas ferramentas tecnológicas e em teo
rias testadas em sólidos institutos de pesquisa, não conseguem
resolver os problemas cruciais de suas áreas.
Parece que esses especialistas e técnicos já não conse
50 guem compreender o mundo, já não conseguem oferecer uma in
terpretação da realidade que permita a tomada de medidas ade
quadas para enfrentar as dificuldades da época em que vivemos.
Essa visão dos especialistas é uma visão estreita, limitada e frag
mentada, e aí é que se deve buscar a raiz da crise, no modelo
55 corrente de explicação da realidade, que não dá mais conta dos
desafios da mudança de século.
A crise na verdade é uma crise de percepção. É uma crise
da forma de interpretar o mundo que nos cerca e agir sobre ele. O
mundo mudou, e o nosso grande engano tem sido continuar ten
60 tando explicá-lo como o fazíamos em tempos passados, por meio
do modelo que constitui o chamado paradigma newtoniano
cartesiano.
O paradigma newtoniano-cartesiano de explicação da reali
dade tem dominado a ciência ocidental nos últimos trezentos anos.
65 Suas principais características são o mecanicismo (concepção do
universo como um mecanismo, uma máquina, sujeito a leis mate
máticas), o empirismo (apenas o conhecimento a partir de fatos con
cretos, passíveis de serem apreendidos pelos sentidos e passíveis
também de mensuração, teria valor científico), o determinismo (uma
70 vez conhecidas as leis que causam os fenômenos, seria preciso
determinar com precisão a sua evolução) e a fragmentação (decom
posição do objeto de estudo em suas partes componentes).
Nesse paradigma, a física obteve sensíveis progressos a
partir do século XIX, tanto pelo uso consistente da matemática e
75 pela eficácia na solução de problemas como pela sua aplicação
bem sucedida em diversas áreas da vida cotidiana. Ademais, a
concepção newtoniana do Universo serviu de modelo para o de
senvolvimento de várias outras ciências e práticas que se encon
travam nessa época em processo de sistematização. Assim é que
80 a biologia, a medicina, a psicologia, a psiquiatria, a antropologia e a
sociologia, entre outras, assumiram as características básicas
desse paradigma.
Além disso, ele serviu de base a toda uma forma de atua
ção sobre a realidade calcada na tendência à auto-afirmação exc
85 essiva e à dominação dos outros pela força, levando ao surgimento
de uma classe dominante organizada, em posições de poder
mantidas de acordo com hierarquias sexistas e racistas – na ênfase da competição em vez da cooperação e no endeusamento de
uma tecnologia que tem como objetivo o controle, a produção em
90 massa e a padronização.
Começava a correr, no entanto, uma revolução na primeira
metade do século XX, com as teorias de Einstein e da física
quântica, que abalaram as bases do mecanicismo, com modifi
cações profundas e importantes para o conhecimento humano. Essa
95 revolução ainda está em curso e se localiza no domínio da ciência,
em particular a física e a biologia, sendo tão fundamental para o
planeta como o foram a descoberta do fogo, da roda, da imprensa
e da energia atômica. [...]
TAVARES, Clotilde Santa Cruz. Por uma Pedagogia da tolerância. In: FICHMANN e BIASOLIALVES (org.) Crianças e Adolescentes: Construindo uma Cultura da Tolerância. São Paulo:
EDUSP, 2001. p.152-154. Texto adaptado.
A seqüência argumentativa do texto pode ser verificada em
descrição do século XXI – explicação da palavra crise – caracterização das mudanças de paradigma – enumeração dos sintomas da crise – definição do novo paradigma científico.
descrição do século XXI – caracterização da crise – definição da crise – análise da mudança de paradigma – caracterização do paradigma newtoniano-cartesiano.
caracterização do século XXI – explicação da palavra crise – enumeração dos sintomas da crise – definição do paradigma newtoniano-cartesiano – constatação das mudanças de paradigma científico.
definição do século XXI – caracterização da crise – definição do paradigma newtoniano-cartesiano – descrição dos sintomas da crise – análise das mudanças de paradigma científico.