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Na passagem “O artista entrava com o prestígio e a...

Leia o Texto 21 para responder às questões de 71 a 73.


Texto 21


A TEVÊ COLOCOU A MÚSICA NO “MUDO”


A história só depõe contra a extinção de programas com atrações musicais relevantes nas emissoras: de Roberto Carlos a Rita Lee, muitos surgiram na televisão


Julio Maria


Algo no silêncio entre uma palavra e outra que Kalil Filho dizia olhando para as câmeras da TV Excelsior naquele 30 de março de 1965 dava pistas de que ele sabia estar pisando no coração da história. “E aqui está a apresentação da última melodia desta noite. Arrastão. Elis Regina.” Ninguém, além dos inferninhos do Beco das Garrafas, no Rio, conhecia Elis quando as tevês mostraram ao país a cantora de corpo inteiro diante da orquestra da emissora. Arrastão caminhava por risos e dramas até chegar ao apogeu eruptivo que a fazia girar os braços e transbordar a voz. O que era dito até então em rodas intelectuais da Zona Sul do Rio se tornava planetário. Elis, mostrava a tevê, era real. (...)

Música e televisão, quando unidas, elevaram à décima potência a euforia do áudio iniciada pela Era do Rádio no instante em que deu a ele uma imagem. Antes de se divorciarem, um fenômeno que tem sido observado nos últimos anos, com a extinção dos programas musicais relevantes das grades de tevê e cada vez menos espaços para música nos que já existem, as partes envolvidas ganharam altos valores palpáveis e outros tantos imateriais investindo em um jogo de mão dupla. O artista entrava com o prestígio e a emissora, com o espaço. Assim, o canal ganhava audiência e o artista triplicava o cachê. Nos casos das produções mais discretas, os músicos novatos garantiam visibilidade e relevância. Nos mais ambiciosos, surgiam alguns dos primeiros popstars pós era de Luiz Gonzaga. Secos & Molhados, Elis Regina, Wilson Simonal, Jorge Ben, Ronnie Von, Roberto Carlos e toda a Jovem Guarda, Rita Lee e toda a Tropicália, os festivais e toda a MPB, Belchior e todo o pessoal do Ceará. Tudo foi revelado em alguma emissora de tevê. O rompimento das tevês com a música tem deixado um inexplicável vácuo e, mesmo em tempos nebulosos de streaming, a sensação é de que alguém, além dos artistas, está perdendo muito com isso. A Globo encerrou o reality de auditório The Voice, em dezembro de 2023, depois de dobrar seu faturamento em 2019 e embolsar 115 milhões de reais. Encerrou, disse, porque tinha coisa melhor por vir. Do outro lado, o enfraquecimento de ilhas musicais menos monetizadas, portanto, mais democráticas, como o programa Ensaio (que nunca foi o mesmo desde a morte de seu idealizador, Fernando Faro, em 2016, limitando-se a reprises) e o Viola, Minha Viola (que, sem sua idealizadora, Inezita Barroso, morta em 2015, exibe reprises desde 2019), ambos da TV Cultura, foi um duro golpe nos valiosos espaços de artistas menos visíveis. Raro espaço longevo, o Altas Horas, de Serginho Groisman, na Globo, ainda consegue dar relevância à música que se faz ao vivo.

Para além do circo dos reality shows que as emissoras conseguem ver quando pensam em programas musicais de abrangência pop existe um ativo de afeto incalculável que só os músicos e os grandes atores são capazes de produzir para as audiências televisivas. É a emoção em estado bruto. Se vivemos a maior profusão desses talentos musicais, não identificáveis por falta de curadoria, não por ausência de material humano, a tevê está perdendo o trem que a levaria à ponta de um novo negócio. Abrir espaços generosos para talentos trazidos por especialistas contratados para investigarem ruas, teatros, casas de show e redes sociais, e não pescarem nos charts dos mais tocados do Spotify, como fazem os curadores dos festivais, abriria uma frente poderosa em seu conceito de musicais e devolveria, remodelada aos novos tempos, o status de plataforma de lançamento de artistas de carreira.


Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/musica-televisao-julio-maria>.

Acesso em: 16 abr. 2024.

Na passagem “O artista entrava com o prestígio e a emissora, com o espaço. Assim, o canal ganhava audiência e o artista triplicava o cachê.”, o conectivo “assim” contribui para a construção de um sentido de


A

adição.


B

conclusão.


C

finalidade.


D

concessão.


E

exemplificação.