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No trecho retirado do texto-base, “Não dá para julgar nem...

Em segredo, somos sempre estranhos

Por Fabrício Carpinejar

01 As grávidas têm desejos alimentares de exceção.

02 Existe uma explicação científica: os hormônios da gravidez, como estrogênio e

03 progesterona, alteram a percepção do sabor e do aroma dos alimentos, levando a mudanças

04 súbitas nas preferências tradicionais. A gestante também precisa de mais nutrientes para

05 sustentar o crescimento do feto, o que pode acarretar fantasias detalhistas por determinados

06 componentes. Por exemplo, a ________ de ferro é capaz de causar ________ por uma churrascaria.

07 Só que nem a ciência justifica certas combinações que as pessoas costumam adotar em seu

08 cotidiano de lanchinhos e refeições.

09 É quase inconcebível alguém querer completar chocotone com fatias cruas de presunto.

10 Não tem fundo racional, mas emocional. O paladar é um magneto de lembranças

11 confortáveis. Por alguma sensação de segurança, você retoma uma mistura que já fez na

12 infância, na casa dos avós ou em tempos de geladeira vazia.

13 Procura o que tranquiliza, reprimindo o medo e a ansiedade. É uma saciedade espiritual,

14 acima de tudo.

15 O inusitado também surge pelas sobras. A invenção nasce da escassez, juntando o que está

16 ao alcance: o doce com o salgado, a sobremesa com o prato principal ▲ num afã do apetite em

17 queimar etapas. Assim, casamentos atípicos atravessam gerações, como goiabada com queijo

18 — quem teve essa ideia no período colonial de Minas Gerais possivelmente sofreu preconceito

19 na época.

20 O que é intragável para uns é tradicional para outros. Cuscuz com leite no Nordeste, purê

21 no cachorro-quente em São Paulo, pastel com caldo de cana nas feiras do interior paulista e

22 nossa salada de batata com espeto corrido já são carteiras de identidade regionais.

23 Há ainda os arranjos extravagantes internacionais: a melancia com queijo feta na Grécia;

24 o chocolate com bacon, o picles com manteiga de amendoim ou as fritas com milk-shake nos

25 Estados Unidos.

26 A banana talvez seja a campeã das intercorrências invasivas, a maior penetra da festa das

27 mutações. Tem gente que come banana com feijão, com catchup, no pão com queijo coalho.

28 A maionese não perde em participações e duetos insólitos, cobrindo bolo doce ou gelatina

29 salgada.

30 Essa emulsão inocente de ovos e óleo é contumaz em seu crime de invasão: entra no miojo

31 como se fosse molho branco, na salsicha como se fosse mostarda, no sushi como se fosse cream

32 cheese, na salada de frutas como se fosse chantilly. Isso quando não soterra uma pizza inteira

33 como se fosse catupiry. E um dublê de molhos e coberturas.

34 Não dá para julgar nem condenar o comportamento de quem embaralha produtos. Não é

35 pecado, não é cafonice, não é falta de noção.

36 Guarde a sua careta, os seus pruridos, o seu beiço de nojo.

37 A ousadia é irmã gêmea da tentativa.

38 Se olhar no âmago de seus hábitos, encontrará uma alquimia um tanto improvável. Ou pela

39 cultura do lugar a que pertence, ou por uma criatividade que virou receita particular.

40 Em segredo, sem ninguém por perto, sem câmeras, longe das redes sociais, na intimidade

41 mais primitiva, somos sempre estranhos.

(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/carpinejar/noticia/2025/06/em-segredo-somos-sempre-estranhos - texto adaptado especialmente para esta prova).

No trecho retirado do texto-base, “Não dá para julgar nem condenar o comportamento de quem embaralha produtos”, a conjunção “nem” expressa uma relação de:


A

Adição.


B

Alternância.


C

Causa.


D

Concessão.


E

Conclusão.